O povo saiu à rua numa última homenagem

<font color=994000>Até sempre, companheiro Vasco</font>

Milhares de pessoas acompanharam, segunda-feira, o cortejo fúnebre do General Vasco Gonçalves, companheiro do povo, patriota e lutador dedicado pela causa do socialismo.
«Vasco, amigo, o povo está contigo» foi uma das muitas frases que se ouviram no último adeus a Vasco Gonçalves. As palavras embargadas pela emoção, impossíveis de conter, foram, ainda e sempre, gritadas a plenos pulmões por aqueles a quem o ex-primeiro-ministro entregou o seu fulgor, a sua inteligência, a sua consciência e acção de homem livre.
Entre o povo que compareceu saudando num último abraço o militar revolucionário, misturavam-se gerações, camaradas e amigos de hoje e de sempre.
Ali encontrámos quem viveu a longa e tenebrosa opressão fascista; quem depois da madrugada libertadora de 25 de Abril de 1974 se juntou aos capitães dando o primeiro sinal de que residia na aliança Povo-MFA uma das traves mestras do sucesso revolucionário; quem depois acompanhou incondicionalmente nos locais de trabalho, no campo e na cidade os homens e as mulheres de coragem que ousaram cumprir Abril e as mais justas aspirações e reivindicações populares.
Vasco Gonçalves, o «companheiro Vasco», como sempre será chamado e recordado pelo povo, foi ainda ladeado por muitos jovens. Gente que mesmo tendo nascido já depois da Revolução, reconhece as sementes de transformação social que de Abril brotaram deixando um legado de direitos e garantias democráticas do mais profundo alcance.
Por tudo isto e pelo muito que o pesar colectivo expressou naquela hora de despedida, o funeral de Vasco Gonçalves foi um rio de cravos vermelhos, símbolo de um processo histórico cujo impacto se pôde ler nos olhos já húmidos de saudade, mas cuja actualidade e futuro se traduziu nos punhos erguidos com confiança contra a exploração.

«O povo unido jamais será vencido»

Falecido na tarde do passado sábado, dia 11, aos 83 anos, o corpo do general Vasco Gonçalves esteve em câmara ardente na igreja da Academia Militar, em Lisboa, cidade donde era natural e na qual sempre viveu.
Muitos foram os milhares de pessoas que passaram pela capela para se despedirem de Vasco Gonçalves, para deixarem um cravo ou uma mensagem no livro de condolências, para lembrarem histórias de um período da sua vida passada lado a lado com o «amigo».
Ausência notada durante o velório foi a do Governo PS, em contraste com a presença marcante de companheiros de «armas» no Movimento das Forças Armadas, nos quatro Governos Provisórios que liderou durante 14 meses e das lutas e combates a que desde então se entregou combativamente, assim como a sentida vigília de centenas de militantes, dirigentes, actuais e ex-parlamentares comunistas.
O Presidente da República, Jorge Sampaio, também compareceu junto féretro.

Pelas ruas da liberdade

À saída da urna, quando a hora já indicava o início da caminhada até ao cemitério do Alto de São João, centenas de populares homenagearam Vasco Gonçalves com uma longa salva de palmas e um grito espontâneo: «Vasco, Vasco, Vasco».
Ouviram-se palavras e frases que muito dizem respeito ao «companheiro Vasco» e a todos os que com ele acreditaram ser possível derrotar a contra-revolução e construir um País de Homens livres, solidários e fraternos.
Pelas ruas da cidade, o cortejo feito a pé foi-se avolumando, de pessoas e de memórias, permanentemente reavivadas com frases que amanhã continuarão a fazer todo o sentido. «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais», «o povo unido jamais será vencido», clamava o povo.
Pela Avenida Almirante Reis passaram lembranças do grandioso 1.º de Maio de 1974, Dia Internacional do Trabalhador que Vasco Gonçalves saudava, todos os anos, sorridente, esperançado e entusiasmado com confiança no futuro.
Já no cemitério, mais gente se juntou, e após as devidas honras militares, no derradeiro percurso voltaram-se a ouvir palavras de ordem emocionadas e cravos, tantos cravos lançados.
Entre o povo, militares de Abril como Rosa Coutinho, Martins Guerreiro, Costa Martins, Pezarat Correia, Vasco Lourenço ou Mário Tomé. Igualmente presentes militantes e dirigentes do PCP como Carlos Carvalhas, José Casanova, Bernardino Soares, Ilda Figueiredo, Odete Santos, António Filipe ou Ruben de Carvalho, entre tantos outros.
O exemplo grandioso de um homem que deixa saudade motivou as almas a cantarem de novo. Primeiro, apenas um burburinho melódico, de fundo. Depois, os compassos em coro, alto e bom som para que sempre perdurem, de «Grândola Vila Morena» e o Hino Nacional. Proferiram-se os discursos oficiais e, num mar de gente, um poema que Eugénio de Andrade dedicou a Vasco Gonçalves, lido por uma amiga do general:
«O Comum da terra»

«Nesses dias era a sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
Também sabe que no verão pelas veredas
Da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
Se perdiam, outras duram ainda, são lume
Breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
Era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
Ventos areias mastros lábios, tudo ardia.»



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Faleceu Álvaro Cunhal

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Faz-nos falta, mas a luta continua

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À hora do fecho desta edição continuavam a chegar à sede do PCP, por correio e através do site na Internet, votos de pesar e condolências pelo desaparecimento de Álvaro Cunhal. Necessariamente incompleto, o registo que publicamos nesta edição refere-se unicamente a personalidades públicas, organizações, movimentos e partidos nacionais e estrangeiros, outras entidades, que endereçaram mensagens escritas à direcção do Partido.

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Para além dos textos políticos e dos ensaios, e, ainda, dessa monumental tradução do Rei Lear, de Shakespear, cujos críticos consideram a melhor realizada até hoje e que constitui um verdadeiro «estudo» sobre a obra, dadas as numerosas notas que a acompanham visando uma melhor compreensão por parte do leitor, Álvaro Cunhal distingiu-se também como romancista.

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Morreu Eugénio de Andrade, figura maior da poesia portuguesa no século XX, o «poeta solar», da palavra luminosa, que teve a sua estreia fulgurante para o grande público com o celebérrimo livro As Mãos e os Frutos no já longínquo ano de 1948, tinha o Poeta apenas 25 anos. Fizera há pouco 82 anos, faleceu de doença prolongada, mas há muito que a sua obra magnífica o lançara para a imortalidade, fazendo também dele o poeta mais traduzido do século XX, logo a seguir a Fernando Pessoa. De caminho, ganhara o Prémio Camões, o maior galardão em língua portuguesa que lhe foi atribuído em 2001, aos 78 anos.

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